terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A tal parte oculta do nosso Hino Nacional

Um defensor público brasileiro está autorizado a reclamar de várias coisas. Mas nunca de tédio. Digo isso porque em quase seis anos de trabalho na Defensoria escutei e ainda escuto casos que até Deus duvida. Um dos mais curiosos aconteceu comigo em 2006, quando eu trabalhava no Juizado Cível do bairro Gutierrez, em Belo Horizonte.
Certo dia, apareceu por lá uma velhinha com jeito de doida que, antes de pedir qualquer orientação jurídica, sentou-se numa cadeira da minha sala e perguntou se podia me ensinar algo sensacional. Eu achei muita graça nela e concordei. Ela me disse então que era amicíssima do Tancredo Neves e do Figueiredo. Por isso, tinha aprendido uma 'parte oculta' do hino nacional brasileiro. Seu trabalho, naquela altura, consistia em ensinar aos soldados do exército os tais trechos misteriosos do nosso hino.
Duvidei da história, mas fiz questão de ouvir. A senhora cantou, diante de mim e dos estagiários estupefatos, versos absolutamente desconhecidos. E o fez com veemência, como se tivesse pleno conhecimento de causa. Encerrada a cantoria, pediu uma informação qualquer e foi-se embora. No mês seguinte apareceu de novo e falou tudo outra vez. E assim foi até o ano seguinte, quando fui transferido. O caso da velhinha ficou famoso no Juizado e rendeu gargalhadas com os 'delírios' da amiga do Tancredo.
No início de 2010, quatro anos depois, recebi um email que explicava tintin por tintin sobre a história do nosso hino nacional. No final do texto, dizia-se que a atual introdução instrumental era mesmo cantada e que a letra do trecho, atribuída a Américo de Moura (Governador da Província do Rio de Janeiro em 1879), acabou sendo suprimida (ainda bem, porque dá calo no ouvido). Eis as tais passagens introdutórias:

Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever
Eia! avante, brasileiros! Sempre avante
Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder
Eia! avante, brasileiros! Sempre avante

Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz
Cumpri o dever na guerra e na paz
À sombra da lei, à brisa gentil
O lábaro erguei do belo Brasil
Eia sus, oh sus!

Quando terminei de ler o email a ficha caiu. A simpática senhora do Juizado, suposta amiga do Tancredo e do Figueiredo, alvo de tantas risadas, estava coberta de razão. Ela pode ter exagerado um pouco na sua história, mas, afinal de contas, tinha algo inusitado para nos ensinar.
Quem se interessar pelo áudio da introdução, cantada com voz doce por Eliezer Setton, pode clicar aqui.

18 comentários:

  1. O nosso Hino é muito bonito, mas muito difícil. Estou cansada de passar da primeira para a segunda parte, naquele pedacinho crítico que todos conhecem. Imagine se tivesse de decorar mais essas duas estrofes!

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    1. Se mata logo então.....

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    2. é muita coisa para algumas cabeças, mas foi retirado porque insuflava o povo EIA SUS ÒH SUS (avante sempre avante)

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    3. é muita coisa para algumas cabeças, foi retirado porque insuflava o povo portanto ovelhas é bem melhor, EIA SUS OH Ó SUS (avante sempre avante)

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  2. Fantástico, Cirilo. Eu não conhecia esses versos que, aliás, já nasceram feios e quadrados. Esse "eia!" é de matar, parece grito de tocar boi. Quanto ao "dever", sabe-se, não foi feito para a classe dominante, mas para o Zé Povinho, vestido ou não de soldado. Mas a sua história é única. Eu cheguei a pensar que conheci essa velhinha, porque havia uma chamada Dirce, que pintava os cabelos de preto, aparecia regularmente na faculdade de direito e se plantava na parte mais alta do "murinho" da entrada lateral para deitar falação. No fim, ela também cantava um hino (que não é esse). Começava assim: "Adeus, Quinta Coluna, nas suas alas eu já me alistei...". No fim ela dizia: "Quando eu calçar a minha botina Rio, quero ver inglês e americano cair fora das Malvinas". Era uma combatente! Vai lá saber o que viveram essas mulheres loucas, não é?
    Beijo procê.

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  3. Tinina, o pior é o "eia sus, oh sus!" Dureza!

    Beatriz, hoje eu penso que deveria ter levado aquela senhora mais a sério. Ela chegou a me mostrar uma foto tirada junto com o Tancredo. Era doida mas uma figura muito interessante.
    Um beijo e boa sorte com a sua tese.

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  4. "Eia sus, oh sus!" Valha-me, deus! Se fosse o S.U.S. eu até entenderia...

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    1. com toda a humildade e respeito e, por mais paradoxo que seja
      eu acredito que se deva levar em consideração o patriotismo e princialmente o nacionalismo daquela época, se compararmos com o que temos hoje... eu sinceramente prefiro àquele, ou pelo menos seus resquícios proveitosos
      Eia sus, oh sus!

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  5. Bom pra aprender a ouvir os mais velhos!!!

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  6. Oi Gi Gavazzi! Você está coberta de razão. Essa foi uma lição que não esquecerei. Um abraço e obrigado pelo comentário.

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  7. Mas afinal, essa parte é ou não oficial, ou melhor, pode ou não ser cantada?
    Obrigado, Leonardo Faber

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    1. Claro que você pode cantar, mas será o único no meio de milhares. Afinal de contas são poucos os que conhecem esse intróito do Hino.
      Que afinal foi tirado porquê insuflava o povo.

      Grande abraço e "Eia sus. Oh sus" (avante sempre avante)

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  8. Prezado Anônimo, os antigos versos introdutórios foram retirados do Hino Nacional. Portanto, não fazem parte da versão oficial. Abraço.

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  9. Beatriz, o fato de não lhe agradar parte da letra que foi suprimida do Hino Nacional Brasileiro, aqui é problema seu mas você tem direito de manifestar sua opinião. Porém,isso, não lhe dá o direito de chamar seus compatriotas de "zé povinho" o que no meu entendimento dá uma conotação de discriminação ao povo sofrido,ao trabalhador honesto que tem família para matar a fome, àqueles que vivem abaixo da linha da miséria, aos aposentados que dedicaram anos de suas avidas para o crescimento e engrandecimento da Pátria. Entre outras colocações suas, uma que me chamou atenção foi quanto ao "dever" (você se referiu, certamente, à obrigações, responsabilidades)... não foi feito para a classe dominante." Ora, eu entendi que para você "classe dominante" refere-se aos "mais abastados," na questão da letra do Hino. Me parece que para você o que importa é o TER e não o SER. Esse dever, independe de classe social, todos os indivíduos têm deveres para com sua Pátria, assim como todos temos nossos direitos. Você deveria pensar só um pouquinho....antes de criticar com arrogância, e perceber que toda a letra do nosso Hino foi elaborada com os vocábulos da época em que foi criado. Atualmente, muitas das palavras aplicadas à letra dele são arcaicas, no entanto, o que importa é a beleza de seu significado. Antes de zé povinho somos o povo brasileiro. É lamentável que existem pessoas de sentimento engessado no que se refere a sua Pátria.
    Com todas as mazelas de ordem social, política enfim...sinto orgulho porque o Brasil é minha Pátria.

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  10. http://youtu.be/x0J62ny7qIY

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  11. Respeitem nosso Hino! Ele fala de esperança, luta, liberdade!É o Hino Nacional, não um funk. Ao contrário do que vemos hoje, na época em que o Hino foi escrito havia cultura...a curtura começou com gente como vocês que não sabem o significado do nosso Hino!!

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