sábado, 14 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Timor-Leste entre a cruz e a espada
No primeiro semestre de 2006, Timor-Leste sofreu grave crise institucional, cujas sequelas são até hoje perceptíveis. Travaram-se conflitos armados entre grupos vindos da região leste (os lorosae) e da região oeste do país (os loromono), sendo que entre eles existia (e provavelmente ainda existe) forte divergência ideológica. A guerra civil, além de levar à morte de dezenas de pessoas e à destruição de prédios e veículos, culminou na queda de Mari Alkatiri, naquela altura Primeiro Ministro de Timor-Leste.
É difícil negar que a instabilidade política de Timor foi ao encontro dos interesses da Austrália.
Proporcionou, de um lado, a saída do governo de um líder hostil a qualquer tentativa australiana de abocanhar o petróleo e o gás timorense e ligado à Fretilin, partido hegemônico com viés esquerdista.
E o caos forçou, ainda, o pedido timorense de envio de tropas militares australianas para conter a violência, fato que implicou enfraquecimento da soberania do Estado socorrido.
Em 2006, a jornalista independente australiana Maryann Keady escreveu o artigo intitulado “Timor Leste: Uma Nova Guerra Fria” (para ler o texto na íntegra, em inglês, clique aqui), no qual elenca os interesses primordiais de potências como EUA, Austrália e China e demonstra como é factível desestabilizar um país para, posteriormente, submetê-lo aos interesses econômicos internacionais. Eis alguns trechos interessantes do artigo:
“No momento, são as rotas marítimas e as reservas de gás e petróleo em torno de Timor Leste que preocupam a Austrália, assim como a entrada de um jogador regional: a China. E uma "Nova Guerra Fria" é exatamente o que surgiu. Timor Leste é um dos países da região apanhados no fogo cruzado entre dois poderosos competidores estratégicos: China e os EUA.
Infelizmente, Timor- Leste está na vizinhança de algumas das rotas marítimas mais relevantes do Pacífico, notadamente o Estreito de Ombei Wetar, uma depressão de águas profundas entre os Oceanos Índico e Pacífico, importante para a passagem de submarinos e que será um ponto de estrangulamento marítimo em qualquer conflito futuro.
Políticos e comentaristas de todos os lados têm sido sinceros acerca do que vêem como dilemas de Timor Leste ao tentar equilibrar as duas nações gigantes.
Políticos e comentaristas de todos os lados têm sido sinceros acerca do que vêem como dilemas de Timor Leste ao tentar equilibrar as duas nações gigantes.
A partir da mudança rápida de fidelidade da China para Taiwan em Kiribati, até à ameaça dos cidadãos de etnia chinesa durante os tumultos de Abril em Honiara, o "fator China" está provocando o caos em toda a região. Os habitantes locais receiam que as potências hegemônicas regionais - China, EUA e Austrália - desempenhem um papel maior nesta instabilidade do que qualquer instabilidade civil orgânica.
Muito tem sido dito na imprensa australiana sobre o papel das divisões étnicas entre o leste e oeste de Timor Leste na origem da violência, divisão esta muito conveniente se você quiser usar o caos civil como um pretexto para o envio de forças militares e, assim sendo, manter o país sob sua esfera de influência.
Muito tem sido dito na imprensa australiana sobre o papel das divisões étnicas entre o leste e oeste de Timor Leste na origem da violência, divisão esta muito conveniente se você quiser usar o caos civil como um pretexto para o envio de forças militares e, assim sendo, manter o país sob sua esfera de influência.
Mas pouco se ouviu falar porque é que, pela terceira vez, as forças internacionais não conseguiram evitar que o povo de Timor Leste fosse aterrorizado por uma terceira parte. Primeiro, houve o ataque indonésio em 1999. Depois, a instabilidade de 4 de dezembro de 2002 (que levou a imprensa Australiana a pressionar Alkatiri para se demitir, imediatamente antes das negociações sobre petróleo e gás). E agora, o caos civil de 2006. A grande questão é, naturalmente, se a Austrália permite que Timor Leste se perca na anarquia, ao estilo das ilhas Salomão, possibilitando assim que suas tropas sejam depois destacadas para este local estratégico.
Se a situação atual de Timor Leste faz parte das políticas da Nova Guerra Fria, então os povos da Ásia-Pacífico têm muito a recear - e Camberra tem muito para responder.”
A Austrália é mesmo muy amiga dos timorenses. E se não fosse pelos esforços de Mari Alkatiri, o petróleo timorense teria ido para as calendas. Para Camberra, melhor dizendo.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Chico Anysio - Mundo moderno
Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna, monta matumbo malhado, munindo machado, martelo, mochila murcha...
domingo, 8 de maio de 2011
O legislador de boteco
É preciso reconhecer que o legislador belorizontino é um marqueteiro criativo. E muito ocupado, vale dizer. Numa jogada de propaganda aplaudida pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, atribuiu o título de "Capital Mundial dos Botecos" à cidade de Belo Horizonte.
O reconhecimento, ao mesmo tempo que chama atenção para a capital mineira, demonstra como é fundamental para a vida de uma cidade possuir Câmara de Vereadores.
E, como quem não tem mar vai ao bar, ninguém daqui precisa de data específica para justificar a ida ao boteco mais próximo, faça chuva ou faça sol. Fica o registro da lei para os curiosos, chegados em Belo Horizonte (e em uma gelada).
O reconhecimento, ao mesmo tempo que chama atenção para a capital mineira, demonstra como é fundamental para a vida de uma cidade possuir Câmara de Vereadores.
E, como quem não tem mar vai ao bar, ninguém daqui precisa de data específica para justificar a ida ao boteco mais próximo, faça chuva ou faça sol. Fica o registro da lei para os curiosos, chegados em Belo Horizonte (e em uma gelada).
LEI Nº 9.714, DE 24 DE JUNHO DE 2009
Declara o Município de Belo Horizonte Capital Mundial dos Botecos e dá outras providências.
O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º - Fica o Município de Belo Horizonte declarado Capital Mundial dos Botecos.
Parágrafo único - Para os fins desta Lei, entendem-se como botecos os bares, restaurantes e assemelhados.
Art. 2º - Fica instituído o Dia Municipal dos Botecos, a ser comemorado, anualmente, no terceiro sábado do mês de maio.
Parágrafo único - A data instituída no caput deste artigo constará do Calendário Oficial de Festas e Eventos do Município de Belo Horizonte.
Art. 3º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Belo Horizonte, 24 de junho de 2009
Marcio Araujo de Lacerda
Prefeito de Belo Horizonte"
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Abin para baixinhos (microcéfalos)
O extinto SNI – Serviço Nacional de Informações, montado na década de 1960 pelo General Golbery do Couto e Silva, é conhecido pela contribuição desastrosa que prestou ao Brasil (sobre o tema, ler A Ditadura Envergonhada do Élio Gáspari). Ele deixou uma cria, para infelicidade geral da nação. O filhote chama-se Abin - Agência Brasileira de Inteligência, cuja missão é “coordenar as ações do Sisbin, produzir conhecimentos e proteger assuntos sensíveis.”
Divulga-se na imprensa que a Abin é uma instituição sem rumo, marcada pela evasão contínua dos seus quadros de servidores, trapalhadas e pelo apego ao passado da ditadura militar, cuja busca frenética pelos "inimigos da segurança nacional" justificou a criação do SNI. Verdadeiras as críticas ou não, uma rápida pesquisa no site da agência revela as bizarrices cômicas que a cercam.
Para começo de conversa, a Abin é representada pelo carcará. Informa-se ao internauta que “O carcará é o símbolo da Abin porque é a ave brasileira conhecida por ser valente, corajosa, ter visão de longo alcance e controle do território onde habita. É altiva e forte, assim como a Abin.”
Coisa estranha. Pelo que sei, caracará “pega, mata e come”. Segundo célebre canção da MPB, “come inté cobra queimada”. Trata-se de ave oportunista, cruel e comedora de carniça. Acima de tudo, é símbolo do mau agouro.
Após copiar a “kids page” da suspeitíssima agência de inteligência norte americana, a CIA, nossa agência tupiniquim criou a “Abin para jovens”, numa tentativa de colorir e justificar sua obscura e não menos suspeita atividade desempenhada. Destaque para os trechos explicativos sobre a produção de conhecimento:
“Você sabia que desde que o homem existe, ele produz, mas também esconde conhecimentos. Esconde conhecimentos? Sim, o homem escreve, fala, faz sinais para se comunicar, porém muitas vezes necessita guardar segredo a respeito de diversos assuntos, como, por exemplo, questões políticas, contatos diplomáticos, comunicações militares, produções científicas, atividades comerciais, industriais, financeiras, além de seus segredos pessoais (como esconder de sua mãe que você quebrou o vaso preferido dela ou o que você fez ontem e não quer que seus pais saibam).”
“As mensagens consideradas secretas existem desde a Antiguidade e sempre exerceram grande fascínio. Bastou o homem aprender a escrever para que começasse a "esconder" seus escritos. Além disso, onde tem segredo tem quem quer descobrir o segredo. Se desde os primórdios da história existem métodos de esconder informações, dos mais simples aos mais engenhosos, desde a Antiguidade também existem os hackers e crackers que bolaram métodos de decifrar e decodificar (ações de espionagem não ocorrem somente nos filmes de James Bond).”
Adorei a analogia do vaso quebrado da mãe. Só fico imaginando um moleque lendo essas explicações no site da Abin e pensando: “Nossa, agora entendi tudo sobre os arapongas!”
Falta a cereja do bolo. Circula na internet um vídeo da Abin, no qual aparecem Batman, Robin e a Mulher Gato, toscamente trajados, entabulando um diálogo impagável, que deveria servir como lição de língua portuguesa. A depender da Abin, o lúdico se transforma em asneira pura.
Talvez seja hora de abater o carcará trôpego. Ele pode ser empalhado em seguida e mantido no canto da sala para simbolizar um passado que não faz falta.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Na sexta-feira o crocodilo volta ao Castaway
Esse pessoal da What Lafaek gosta mesmo é de inventar moda. Surgiram agora com um flyer da Scarlett Johansson anunciando que na sexta-feira à noite não pretende ficar em casa vendo o casamento do príncipe William. Vai é cair no rock'n roll lá no Castaway. Tô fazendo figa pra ela aparecer mesmo lá no boteco. Esta semana tínhamos um ensaio marcado na terça, mas a chuva alagou a casa do guitarrista. Pô, acontece. Hoje, rumamos otimistas para a casa do Craig (que agora adquiriu a mania de fornecer rosbife e acepipes para os seus companheiros de banda - e quem sou eu para reclamar), porém, outra surpresa: acabou a luz. Pronto! Danou-se. Ainda bem que aqui em casa tem gerador.
Fico de dedos cruzados para ver o dia em que o fornecimento ininterrupto de energia elétrica para Dili será uma realidade. O povo timorense poderia parar de se virar nos trinta. E nós também.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Para os egos mais inflados, fica a lição
Para as pessoas que se julgam especiais e insubstituíveis, com um senso de superioridade incontido. Um recado do Mário Sérgio Cortella.
domingo, 24 de abril de 2011
Maubisse (Timor-Leste)
Seguimos o conselho dos amigos e tocamos para Maubisse, no centro de Timor-Leste. É preciso conhecer pessoalmente a região para acreditar que realmente faz frio nalguma parte deste país.
A viagem para lá é demorada, apesar da curta distância. São apenas sessenta e poucos quilômetros de Dili, numa estrada de curvas intermináveis, pista estreita e buracos. Aliás, crateras. Às vezes dos dois lados da pista, que está perto de ceder completamente em certos pontos. Carro baixo não chega a Maubisse.
Pobres dos moradores da região.
Para o passageiro, contudo, é uma maravilha. Pode desfrutar de paisagens lindíssimas de montanhas que lembram muito as de Minas Gerais.
Falando nisso, a cidade de Maubisse é uma réplica, em menor escala, de Lavras Novas, cidadezinha próxima de Ouro Preto, eleita por muitos como o melhor lugar para namorar pelado no Estado de Minas. Raciocínio semelhante pode ser aplicado a Maubisse.
A pousada mais famosa de lá foi instalada numa antiga casa portuguesa, em ponto privilegiado do imenso vale. Tem até lareira no lobby. Lareira numa casa de Timor-Leste! Pois é. Naquelas bandas a realidade é outra. Chegamos e o maun foi logo dizendo, peremptório: "Querem almoçar e jantar? SÓ TEMOS FRANGO." Assim foi e o frango estava espetacular. Melhor só seria se fosse com quiabo, mas aí são outros quinhentos.
Monumento da cidade de Aileu, erguido em homenagem aos timorenses mortos no conflito entre japoneses e aliados durante a segunda guerra mundial.
Túmulo ao lado da estrada, nos arredores de Aileu.
O vale de Maubisse e o morro no centro, com a pousada no topo.
Antiga casa portuguesa onde atualmente funciona a pousada. Nada de ar condicionado e lareira no lobby.
A cidade de Maubisse, vista da pousada.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Mensagem ao Chico Buarque
Eu estava lendo o livro do Wagner Homem intitulado Histórias de Canções - Chico Buarque e me deparei com um cartão de boas-festas escrito pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), endereçado ao Chico. Eis a agourenta mensagem natalina:
"Chico
Você lê jornais? Então sabe que seu 'pai espiritual', Fidel Castro, continua libertando milhares de presos políticos. O Brasil tem cerca de 4 e Cuba milhares. Onde há mais liberdade? Você continua sendo o primeiro em nossa relação.
O Comando de Caça aos Comunistas deseja a você, ativista da canalha comunista que enxovalha nosso país, um péssimo Natal e que se realize no ano de 1980 nosso confronto final."
E pensar que uns absurdos deste nível aconteceram há tão pouco tempo no Brasil.
terça-feira, 19 de abril de 2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Um minuto em Ha Long Bay (Vietnam)
No caminho para Ha Long Bay nosso guia vietmanita, figura espirituosa, cismou comigo e não parava de chamar o XILIU do Brasil. Muita paciência nessas horas! Meu nome é problemático para os asiáticos. Logo depois que chegamos, fui interpelado por um turista de Moscou, admirado por conhecer um brasileiro com nome de russo. Provavelmente ele estava pensando no meu estranho xará, o Cirilo I de Moscou, bispo ortodoxo e patriarca da capital. O tal rapaz ainda comentou que estava com viagem marcada para o Rio e que não via a hora de conhecer o CT do Flamengo. Nosso mundo é mesmo um ovo. No frio ardido da baía eu filmei este vídeo curto, que dá uma idéia da beleza do lugar.
sábado, 16 de abril de 2011
Se ema la iha asu...
Ontem, depois da nossa tentativa frustrada de ir a Ataúro - o motor do navio pifou - passamos numa feira aqui de Dili e compramos o Pequeno Príncipe traduzido para tétum. Espetacular! Complicado agora vai ser entender as incontáveis metáforas da língua timorense e traduzir um palavreado que não se encontra em dicionário nenhum. Lembrei do meu professor de tétum, que rolava de rir com as nossas traduções de ditados populares brasileiros. Sem dúvida, o que fez mais sucesso foi 'quem não tem cachorro caça com gato´, cuja tradução para tétum é se ema la iha asu soro ho busa (salvo engano, existe um ditado semelhante na língua indonésia. Vou pesquisar a respeito).
Um dos 'busas' que vivem filando leite aqui em casa.
Ganhei coragem (Rubem Alves)
“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece“, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.
Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos“. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: “O povo unido jamais será vencido“: é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo“ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo“ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os 10 mandamentos. E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre...“ Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela não era confiável. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis“ por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições – e a democracia - são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo“...
O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno“, à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...“ Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.
(Folha de S. Paulo, 05/05/2002)
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis“ por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições – e a democracia - são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo“...
O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno“, à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...“ Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.
(Folha de S. Paulo, 05/05/2002)
Fonte: rubemalves.com.br
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